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Permacultura: uma Metodologia de Design

Desde os primórdios da agricultura a cerca de 10.000 anos que nossos sistemas de produção alimentar vem se distanciando da maneira como a natureza produz alimentos, gera energia e recicla seus nutrientes e resíduos. Hoje, segundo relatórios da FAO, o agronegócio perde de 25 a 40 bilhões de toneladas de solo por erosão por ano. Em média o agronegócio perde 20 toneladas de solo para produzir 500 quilos de alimento por pessoa por ano. Mas por quê os ecossistemas naturais são energeticamente autônomos e regenerativos na manutenção dos processos vitais de toda a fauna e flora que os compõem enquanto que a agricultura que desenvolvemos vem degradando todo o planeta?

Nota: Texto produzido por Eurico Vianna e baseado em uma palestra de Patrick Whitefield, educador, autor e designer em permacultura disponibilizada no Youtube e acessada em 24/05/16

A resposta está na diversidade dos elementos que compõem os ecossistemas naturais assim como no número de interações de benefício mútuo que acontece entre esses elementos. Embora talvez consigamos calcular o número de elementos em um ecossistema por meio de cortes arbitrários, nossa ciência ainda não é capaz de entender por completo a quantidade e a complexidade das interações entre eles. Começamos a perceber, no entanto, que embora a competição exerça um papel importante, é a cooperação entre os elementos que realmente dá suporte para os processos vitais em cada ecossistema.

Um exemplo simplificado do mosaico de interações que acontece em um ecossistema é a maneira como plantas diferentes se especializam em extrair minerais diferentes do solo de maneira que quando perdem suas folhas ou morrem, seus minerais são disponibilizados para outras plantas. Mas esse processo de decomposição e disponibilização de minerais e nutrientes acontece por meio da ação de bactérias e fungos que, por sua vez, encontram a energia e nutrientes necessários para sobreviverem no decorrer desses processos. Essas relações de benefício mútuo também ocorrem entre plantas e animais como no caso da interação dos insetos polinizadores e as plantas floridas. Nesse caso os insetos obtém seu alimento enquanto ajudam as plantas a cumprir suas funções reprodutivas.

Se o nosso objetivo é criar sistemas repletos de interações de benefício mútuo de forma que funcionem como ecossistemas naturais, ou que em outras palavras, sejam energeticamente autônomos e regenerativos na manutenção do nosso modo de viver, então devemos posicionar os diferentes elementos de um sistema de forma a criar essas interações de benefício mútuo. Esse é o princípio da localização relativa, onde por meio do lugar onde posicionamos um determinado elemento em relação à outro nós copiamos os princípios ecológicos otimizando as interações de benefício mútuo, aumentando a resistência do sistema e diminuindo a quantidade de energia gasta em sua manutenção. Um exemplo clássico da aplicação do princípio da localização relativa na Permacultura é o posicionamento do galinheiro ao lado da horta. Nesse caso, os restos da horta alimentem as galinhas e o adubo gerado pelas galinhas alimenta a horta, enquanto os produtos gerados pela interação (carne e ovos, por exemplo) nos alimentam. Outro fator benéfico nesse caso é a economia de energia humana gasta na manutenção do sistema, uma vez que com apenas uma visita ao mesmo local é possível manejar a horta, o galinheiro e fazer a coleta dos alimentos.

Os elementos, em si, como no caso, por exemplo, do uso conjunto de uma estufa acoplada a uma casa, podem não se assemelhar a um ecossistema natural, mas compartilham com estes uma resiliência criada por interações de benefício mútuo. Nesse caso a estufa além de permitir a produção de hortaliças durante o inverno também serve para transferir energia em forma de calor para a casa durante o dia. A casa que armazenou calor durante o dia, ajuda a manter a estufa aquecida durante a noite.

É a ato pensado, premeditado, de colocar dois ou mais elementos juntos de forma a criar interações de benefício mútuo que consuma o princípio da localização relativa. É por conta do princípio da localização relativa e do número de interações de benefício mútuo gerado pela aplicação dele que a Permacultura é uma metodologia de design funcional. É por isso que o curso de formação é chamado Curso de Design em Permacultura (Permaculture Design Course ou PDC, como é chamado em inglês) e a atividade central do curso é uma série de exercícios de design ensinando como criar essas interações entre os vários elementos que compõem os vários sistemas de um projeto permacultural.

Essa maneira simplificada de abordar o design permacultural nos remete a um dos aspectos mais úteis da Permacultura como metodologia de design. Um conjunto de 4 conceitos que David Holmgren (um dos criadores da Permacultura) chama de Ferramentas Chave do Planejamento: Análise de Zonas, Análise de Setores, Rede de Interações (network) e Elevação (estudo topográfico).

Análise de Zonas e Setores

A análise de zoneamento governa as energias empreendidas em determinada área. No caso das zonas nós avaliamos as energias empreendidas de dentro para fora, ou seja, à partir do lugar onde moramos em direção às outras áreas onde precisamos trabalhar em nosso terreno. Usamos o zoneamento para minimizar energias gastas na implementação e manejo dos nossos sistemas de produção alimentar e energética tendo como ponto de partida o lugar onde habitamos. Desse modo os sistemas que são visitados mais frequentemente são implementados mais próximos à casa e os que precisam de menos visitas mais distantes de modo a economizar tempo e energia na implementação e manutenção desses sistemas.

Já a análise de setores lida com energias que fluem de fora para dentro do terreno onde habitamos. Por exemplo, de onde vem os ventos fortes, vistas que queremos favorecer ou excluir, ruídos que queremos bloquear, fluxos de enchentes que podemos usar para captar água, etc. A análise de setor é usada, então, para receber ou excluir energias que vem de fora para dentro do terreno onde habitamos.

O desenho da foto (ao lado) mostra uma Análise de Setores da área de produção da Fazenda Bella

feita em um exercício de design. Nesse caso o centro da análise é a nossa agrofloresta e estação de beneficiamento, uma vez que não moramos no local da produção. O arco vermelho mostra a área de risco de queimadas. O arco roxo mostra os ventos secos que predominam de maio a setembro (intensificando o risco de queimadas). O arco azul mostra os ventos de verão que predominam de outubro à abril. Os arcos laranja e amarelo mostram o aspecto solar (a variação no angulo em que o sol aparece no céu no decorrer das estações do ano).

 

Rede de Interações (network)

Na Permacultura enfatizamos a noção de que não é o número de elementos (ou diversidade por si só) em um dado sistema que aumenta sua resiliência. É o número de relações de benefício mútuo dos elementos de um sistema que traz funcionalidade e resiliência. Bill Mollison costumava contar em suas aulas que a rede do pescador ainda é bastante eficiente com até quase 70% de seus fios rompidos.

 

Elevação (estudo topográfico)

O estudo topográfico do terreno nos permite encontrar fontes de ar quente e frio para usar em nossas moradias e sistemas de produção alimentar. A análise topográfica também nos permite posicionar elementos como açude e valas de infiltração de forma a usar a gravidade nos sistemas de irrigação. Ambas estratégias que nos permitem economizar energia na casa e na produção de alimentos.

Nas Vivências Permaculturais e cursos na Fazenda Bella nós abordaremos a Análise de Zonas e Setores discutindo e mostrando como estamos desenvolvendo e mantendo nossos sistemas. Dessa forma, nossos alunos entendem melhor como essas ferramentas podem ser úteis na produção de alimentos, geração e conservação de energia.

 

Um comentário sobre “Permacultura: uma Metodologia de Design

  1. […] resumo, a Permacultura é uma metodologia de design regenerativo que engloba vários outros conhecimentos e práticas dentro de um sistema estruturado […]

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