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O Vegetarianismo/Veganismo e a Agricultura Regenerativa

Existe um número cada vez maior de pessoas adotando o vegetarianismo ou veganismo por questões ambientais, espirituais ou de saúde. Embora as razões espirituais também possam ser discutidas, contextualizadas e analisadas criticamente, eu discuto aqui só algumas das questões ambientais e de saúde. De antemão também já esclareço que não viso argumentar a favor ou contra uma ou outra dieta em específico. Ao contrário, meu objetivo é contextualizar alguns dos argumentos usados de ambos os lados para que possamos avançar no debate.

Artigo escrito por Eurico Vianna,  PhD.
Eurico está disponível para projetos educacionais e consultorias em Design Regenerativo. Para entrar em contato com Eurico, ler outros artigos e ouvir entrevistas sobre idéias, ações, pessoas e projetos de impacto positivo, visite o site www.euricovianna.com.br 

É muito comum na produção de cursos e eventos, tanto na Fazenda Bella como aqui na Austrália, que ofereçamos opções de refeição vegetarianas. De fato, é cada vez mais comum entre as pessoas com inclinações ambientalistas a expectativa de que todas as refeições sejam pelo menos ovo-lácteo-vegetarianas se não completamente veganas (dieta que exclui todo e qualquer produto derivado de animais). Essa expectativa, assim como algumas crenças presentes nos debates sobre qual dieta tem menos impacto ambiental, nem sempre são baseadas em fatos. Frequentemente também alguns argumentos são baseados em ‘meias verdades’.

Primeiramente eu quero contextualizar alguns dos argumentos usados por vegetarianos/veganos e onívoros. O argumento de que a produção da carne tem maior impacto ambiental, por exemplo, é comum. Ele também é verdadeiro. Mas só quando se trata da carne, laticínios e ovos produzidos pelo agronegócio. Quando os métodos usados são regenerativos como na agroecologia, na permacultura ou no gerenciamento holístico, por exemplo, a produção de carne, laticínios e ovos podem contribuir para a criação de solo, o aumento da biodiversidade e a recuperação dos lençóis freáticos. Essa possibilidade quase sempre não é mencionada pelos que advogam em prol do vegetarianismo ou veganismo.

As pessoas que promovem o vegetarianismo/veganismo frequentemente também não abordam o fato de que a base alimentar da grande maioria dos ocidentais hoje em dia são os grãos (trigo, arroz, milho, soja, etc.) produzidos pelo agronegócio. Ou seja, mesmo quando não comemos carne, se a base da nossa dieta não é fornecida por pequenos produtores rurais, nossa dieta continua destruindo o planeta. E é fácil comprar verduras e legumes em CSAs e feiras orgânicas, mas não é tão fácil comprar arroz, feijão, milho e tubérculos, por exemplo nos mesmos lugares. Em suma, enquanto a base da nossa pirâmide alimentar (composta em sua grande maioria por carboidratos) for suprida pelo agronegócio, o debate em torno de qual dieta tem menos impacto ambiental é praticamente inútil.

Outra questão muito pouca discutida nesse debate é a do bioma ou região climática onde as pessoas vivem. É bem verdade que em regiões tropicais, com água abundante (em chuva, humidade relativa, rios e açudes) uma dieta vegetariana ou vegana é possível e os alimentos relativamente fáceis de serem encontrados (ou produzidos). Mas dois terços da população do planeta vivem em áreas semi-áridas ou áridas. E nessas partes do globo o argumento de que podemos comer as plantas diretamente ao invés de comer os animais que as comem cai por terra. Nessas regiões herbívoros e outros animais conseguem sobreviver porque eles conseguem digerir as plantas que vivem bem nessas regiões mas que não são comestíveis para os seres humanos. Nesse caso o animal converte essas plantas não comestíveis para humanos em nutrientes, calorias, sais minerais e vitaminas indispensáveis para nossa saúde.

Em grande parte, a falta de contextualização, ou seja, de entendimento das variáveis que estão sendo discutidas vem do fato de que as pessoas se distanciaram demais da produção de seu próprio alimento. Outra fração do problema está relacionado com o fato da nossa cultura cientificista ter criado um ambientalismo onde o ser humano não é parte integral do bioma a ser preservado. Ou seja, para preservar é necessário a nossa própria exclusão. Esse tipo de ambientalismo dificulta ainda mais o entendimento ecológico necessário para que nós possamos adotar as práticas e abordagens que, por copiar a forma como a natureza funciona, podem produzir nossos alimentos enquanto regeneram os lugares onde são produzidos.

Os onívoros que são muito apegados ao consumo exagerado da carne, por outro lado, também incorrem nos mesmos erros. Um exemplo clássico disso é a maneira como alguns produtores rurais tem usado as descobertas do Gerenciamento Holístico, criado por Allan Savory, para promover um consumo exagerado da carne. Savory descobriu que as manadas enormes de herbívoros de vários tamanhos que habitam as savanas ajudam a compor a humidade e a fertilidade dessas regiões. Segundo ele, a quantidade de fezes e urina espalhados pelas manadas durante seus processos migratórios são parte integral do ciclos hidrológicos dessas regiões. O insight da gestão rotacionada de grandes manadas em pastagens sequenciais é parte importante do Gerenciamento Holístico. O problema é que esse método tem sido usado em áreas tropicais, criando e mantendo pastagens onde a Agricultura Sintrópica de Ernst Gotsh, e as florestas que ela cria, seria mais apropriada. Mais uma vez temos um argumento usado fora de contexto por conta da falta de conhecimento ecológico e conexão com a região onde vivemos.

Os onívoros frequentemente também argumentam que uma dieta vegetariana/vegana não é capaz de suprir todos os nutrientes necessários para uma vida saudável. Quando o assunto é saúde, entretanto, a discussão fica difícil porque existem pesquisas científicas que embasam os dois lados. E, se por um lado as pesquisas que favorecem uma dieta onívora podem ter sido influenciadas pelo agronegócio, por outro as que favorecem o vegetarianismo/veganismo podem ter sido influenciadas pela ideologia naturalista. Meu ponto é de que não existe ciência 100% neutra. É importante saber de onde a pesquisa veio, como foi financiada, qual hipótese deu origem ao trabalho, etc. E isso vale para qualquer pesquisa nos dois lados desse debate. Mas verdade seja dita, a carne produzida pelo agronegócio e vendida em pacotes no super mercado não fornece os mesmos nutrientes que a carne produzida de maneira regenerativa com animais criados soltos. Isso porque quando fazemos parte do sistema que produz a carne, o envolvimento nos traz consciência do sacrifício daquela vida e consequentemente aproveitamos todas as partes possíveis daquele animal, otimizando assim a absorção de nutrientes, cálcio, colágeno, etc. De novo, a regra é a mesma: pensamento crítico e engajamento. Se a dieta é onívora, de onde vem o animal, como foi criado, quem o produziu, como posso aproveitar o máximo possível a vida sacrificada?

Meu objetivo com esse artigo não é esgotar, de maneira alguma a discussão, mas trazer mais informações para o debate. Outra parte do problema que temos tem haver com a escala das nossas cidades e maneira com a qual nossas habitações não fecham os ciclos de nutrientes como os ecossistemas fazem. O tamanho das nossas cidades muita vezes inviabiliza a produção local simplesmente porque o que é produzido nos arredores não é capaz de suprir a demanda dos habitantes. A questão dos ciclos dos nutrientes exige um entendimento básico de como os ecossistemas funcionam. Por exemplo, na natureza os animais se alimentam do mesmo ecossistema onde seus dejetos e carcaças são depositados. Os nutrientes, apesar de ‘viajar’ um pouco com os movimentos migratórios, normalmente ficam dentro do ecossistema a que pertencem. Da mesma forma, quando um animal é criado para o abate usando abordagens regenerativas como a Agroecologia, a Permacultura ou o Gerenciamento Holístico), grande parte dos nutrientes ficam no sistema por meio de suas fezes e urina durante sua vida e das carcaças depois que são abatidos e processados. Com mais de 75% da população mundial vivendo nas cidades, nós causamos um verdadeiro estrago ‘exportando’ nutrientes em forma de alimentos (grãos, hortaliças, laticínios e carne) do campo para cidade. E o que é pior, ao invés de usarmos nossos dejetos como um recurso (fertilizante) para produzir nosso alimento, como é feito naturalmente por todos os outros animais nos ecossistemas em que vivem, nós concentramos esses dejetos em estações de tratamento onde eles se tornam poluentes quebrando assim os ciclos naturais.

A grande verdade é que as nossas opções de dieta são conversas fúteis, que frequentemente criam divisões e exclusão social quando elas não nos guiam para uma vida harmoniosa com a natureza. A grande mudança de dieta que precisamos fazer é passarmos de consumidores do agronegócio a produtores regenerativos. Eu sei que não é possível termos toda a divisão de trabalho de nossas sociedades de maneira que todos produzam o suficiente para ser autossuficientes. Mas é possível redesenhar nossas sociedades de maneira a produzir 100% de toda nossa pirâmide alimentar em um sistema de produção alimentar que visa a INTERdependência de todos os envolvidos. Precisamos, entretanto, começar por algum lugar. Se é a dieta que é importante para você, passe a entender de onde vem seu alimento e como ele é produzido. Mas é mais importante gastar sua energia suprindo todos os ingredientes da pirâmide alimentar com alimentos produzidos localmente e de maneira regenerativa, do que tentando ‘converter’ os outros a sua escolha de dieta. Como dizia Bill Mollison, co-criador da Permacultura

A maior mudança que precisamos de fazer é a do consumo para a produção, mesmo que em pequena escala, nos nossos próprios quintais. Se apenas 10% de nós fizermos isto, haverá o suficiente para todos. Daí a futilidade dos revolucionários que não têm quintais, que dependem do próprio sistema que atacam, e que produzem palavras e balas, não comida e abrigo. (Bill Mollison)

Obs: A ideia do artigo é promover o conhecimento das formas de produção alimentar, mais que uma ou outra dieta como disse acima. Havendo interesse suficiente em forma de perguntas e críticas (construtivas) podemos marcar um dia para fazer uma sessão ao vivo pelo FaceBook de forma a facilitar a participação de todos.

Referências:

Mark Sheppard traz uma contextualização mais detalhada de como sistemas de produção de alimentos devem ser desenvolvidos de acordo com a vegetação e o clima de determinada região e de como a agricultura baseada em grãos é nociva ao planeta.

Sheppard, M. (2013). Restoration Agriculture: Real-World Permacultura for Farmers. Acres USA. USA

Allan Savory é um ecologista Sul Africano que criou o Gerenciamento Holístico. Sua abordagem de pastagem rotacionada permite a criação de solos, a recuperação dos ciclos hidrológicos e combate os processos de desertificação em qualquer região, mas mais especificamente nas regiões áridas e semi-áridas do planeta.

Savory, A. (2013). How to fight desertification and reverse climate change. TedTalk acessado em 02/01/2018 – https://www.ted.com/talks/allan_savory_how_to_green_the_world_s_deserts_and_reverse_climate_change

Outra fonte muito boa mostrando como é possível unir a agropecuária regenerativa ao empreendedorismo é o filme Polyfaces: A world of many choices, disponível por esse link. O documentário relata a abordagem de Joel Salatin para a produção de carne, laticínios e ovos e conta com depoimentos de especialistas como Michael Pollan, que escreveu O Dilema do Onívoro.

 

 

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